Hilton Berredo

Dos anos 80 às obras recentes

Pondo fim a uma ausência de vinte anos desde minha última exposição individual, apresento nesta mostra meu trabalho recente ambientado no contexto de algumas das obras que guardei comigo. Certo, minha trajetória estaria mais bem representada com outras tantas obras que se encontram em museus ou coleções particulares. O objetivo aqui é mais modesto, trata-se de mostrar e situar o trabalho atual como a mais recente tentativa de dar forma às questões de arte que me interessam desde os anos 1980. Rodeadas da seleção que aqui reuni, as obras recentes encontram a ambientação ideal para que o espectador julgue por si mesmo.

Fosse uma tese, esta exposição poderia ter apenas duas obras, a pintura sobre tela O Quinto em PB de 2018 e a borracha pintada Maré Vermelha de 1988. O Quinto é a realização em 2018 de um projeto que se inicia em 1989 quando abandonei a obra em borracha e todo o sucesso que ela teve na época da Geração 80, cujo ponto alto é Maré Vermelha. Em tese, eu poderia me concentrar nessas duas peças e dramatizar espacialmente essa experiência do espectador confrontado com um esforço de três décadas.

 

Mas não rola.

 

Entre uma e outra não existe uma rota certeira como algo que vai de um lugar para outro, do Rio a São Paulo. O que há é um emaranhado de sendas, como o conjunto de trilhas na Floresta Negra heideggeriana, uma inteira região de caminhos que não levam a lugar algum porque são o próprio lugar de acontecimentos. O Holzweg não é uma passagem para lugares onde as coisas acontecem, é o próprio lugar de acontecimentos.

Ademais, O Quinto em PB não é um ápice, um cul-de-sac, ou o último (é o quinto). Do mesmo modo que Maré Vermelha não é a origem, o início ou o princípio, é apenas outro ponto nesse Holzweg. Mas a comparação dessas duas obras abre uma luz nesse emaranhado de caminhos e ajuda a responder à pergunta recorrente que me fazem:

 

mas porque você parou de trabalhar com a borracha?

 

Por ambição estética, entre outros motivos menores. Pelo desafio de desenvolver uma linguagem independente dos materiais, pela angustia do abismo que seria colocar a carreira acima da obra e navegar no sucesso fácil da repetição. Creio que esta exposição deve esclarecer a fortuna (ou infortúnio) dessa ambição.

Selecionei 14 obras de borracha (1983/89), minha fase mais conhecida; 6 pinturas a óleo sobre tela da série Antropofagia Romântica (1992/94), série exposta no Paço Imperial em 1994; 7 obras da série PVC (2008/10), sendo 5 delas inéditas; 44 pequenos formatos em acrílica sobre tela das séries Estado de ânimo (2016) e Orgânicas (2016/17); e 12 pinturas em acrílica sobre tela da série FLAT3D, trabalho atual iniciado em meados do ano passado.

As séries Estado de Ânimo e Orgânicas podem dar uma introdução ao volume de trabalho necessário para se atravessar certos trechos da floresta. Esses pequenos formatos antecedem o trabalho atual, e por isso abrem a exposição. Ficam aqui no lugar de tantas outras séries nos lapsos de tempo entre o que se apresenta aqui.

As obras em borracha (1983-1989) respondem à minha crença na época de que a pintura sobre tela tinha morrido e que era preciso encontrar alternativas para o quadro. Encontrei um caminho ao perceber que abrindo-se um corte numa placa plana de materiais flexíveis, depois sobrepondo-se  e colando-se as margens do corte, o material se estrutura como um cone, transformando as placas planas em objetos tridimensionais.

Colocado sobre a parede, o objeto resultante requer a visão frontalizada da pintura, mas o peso e o caimento do material recortado e tornado forma tridimensional a partir de um jogo de tensões e distensões estruturantes são questões da escultura.

Esse ponto é vital: não se trata de tomar o material como simples alternativa à tela, um novo material, uma nova superfície, mas de tratar as propriedades materiais como parte do problema principal. O problema era gerar um espaço robusto, estruturado com a força da gravidade sobre um material plano para oferecer uma saída para o esgotamento da pintura chapada que herdamos da abstração. Não me interessava adotar um material apenas por suas qualidades de superfície.

A partir do procedimento simples de corte e tensionamento, surgiram as conchas em 1983. E toda a obra em borracha aconteceu assim até a última borracha da época, Linear, obra inédita que abre mão da cola, da pintura, da hegemonia do plano. Seu recorte se submete apenas à gravidade, gerando uma movimentação que foge à planaridade da linha desenhada. Obra puramente escultórica, Linear precede minha volta à pura pintura.

A seguir, trabalhei uma série de pequenos formatos até que em 1991 encontrei numa livraria infantil reedições de papéis de presente, de decalques vitorianos e de padrões para decoração de paredes. Eram designs de artistas-artesãos do século XIX, o tipo de iconografia que me encantava nos anos 1970 como possibilidade de uma fuga desbundada do engessamento de certos dogmas modernistas ditos racionalistas propagados pelos devotos da Escola de Ulm.

Mas vinte anos depois, nos anos 1990, já havia um novo contexto de valorização dos jovens neoconceituais com seu desapego à cor, e essa decoratividade deslavada perderia o ar de contestação. Mesmo assim, eu encarei a possibilidade de trabalhar a idéia de colagem simulada na série Antropofagia Romântica (1992/94).

Minha pretensão era criar uma atmosfera tropicalista a partir de imagens européias e testar a crença de que a antropofagia é uma prática voraz que elimina o original europeu e não suporta apropriações diretas. Mas, como parte de um objetivo maior, aquele de encontrar na pintura o espaço robusto da borracha, Antropofagia foi um projeto fechado. Mas por se tratar de imagens apropriadas, seu escopo fugia de meu espaço de linguagem próprio.

A complexidade visual de Antropofagia me desafiou por alguns anos em diversas séries inéditas, até que julguei ter alcançado uma nova síntese na série PVC (2008/10). Retomei as práticas metodológicas e a linguagem da borracha, adicionando a tecnologia da impressão direta em PVC para aplicar na placa do material as minhas composições fotográficas. A placa impressa era depois recortada, colada e pintada ou riscada. Um trabalho de faz-destrói-refaz: a composição no photoshop destrói a visão unitária da foto, mas é destruída pelo recorte que depois de tensionado forma um objeto tridimensional sobre o qual aplico tinta e marcadores permanentes. Comparada com as borrachas, essas obras minimizam ao máximo o toque com a parede, procurando um efeito de flutuação sobre o suporte vertical.

Na série FLAT3D, iniciada em 2017, parto de desenhos em papel branco que recorto, tensiono e colo (na maioria das vezes). Com eles faço construções espaciais usando os mesmos procedimentos da borracha e do PVC. O objeto resultante é iluminado e fotografado. Em seguida, projeto a imagem fotográfica na tela para desenhar seus contornos e depois pintar.

Meu entusiasmo com O Quinto em PB se deve ao efeito de profundidade que se pode comparar com o espaço real das borrachas. É um efeito de tridimensionalidade diferente do espaço recessivo da perspectiva linear, que se estende fugindo para o horizonte. Em O Quinto, o espaço avança sobre o espectador, como se inflado de dentro da tela para fora. O efeito de figuras sem espessura, planos construindo um espaço ilusionista entrelaçado, expansivo e em movimento me parece que propõe um caminho diferente dos planos paralelos sobrepostos em espaços rasos como em Antropofagia.

Talvez o espectador concorde comigo quando digo que vejo em O Quinto a criação de um espaço robusto, tal como aquele que a abstração perdeu ao optar pela planaridade rasa de um Mondrian em detrimento do espaço abismal com formas flutuantes de Malevich. E, quiçá ganhe sentido a comparação de Maré Vermelha com O Quinto:

enquanto a primeira, como um grande alto-relevo, propõe uma visão frontalizada de um espaço com profundidade real e traz para a pintura assuntos da matéria e da gravidade, O Quinto assume a visão frontalizada da pintura, simula uma materialidade sem peso com formas flutuantes, imunes à gravidade, ainda assim criando um espaço robusto e expansivo. Se assim for, esse espectador entenderá o entusiasmo como que abro uma exposição que aponta para o futuro enquanto apresenta o momento presente como a realização de uma promessa do passado.

 

Hilton Berredo, fevereiro de 2018.

Paço Imperial
Praça XV de Novembro, 48
Centro - Rio de Janeiro
55 21 2215 2093
 
De terça a domingo, das 12 às 19h
Entrada Franca

Bistrô do Paço
De segunda a sexta, das 11h às 19h30
Sábados, domingos e feriados, das 12h às 19h
 
Restaurante Arlequim
De segunda a sexta, das 10h às 20h
Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h