Cristina
de Pádula

aqui, não
Curadoria
Cezar Bartholomeu

aqui, não/construir, criticar

O título da instalação de Cristina de Pádula sugere uma enorme negatividade, o que é confirmado por certo esvaziamento centrípeto do lugar de exposição, mas sobretudo pelo negror do material de que faz uso para construir seus trabalhos, sejam eles desenhos, fotos, vídeos, objetos de cena, elementos construtivos do espaço ou mesmo acúmulos de seus restos quase sem forma. No entanto, essa parafina tingida é bem mais que uma matéria-prima. Mesmo quando se apresenta sem forma, constitui-se como signo amplo dessa negatividade e marca uma economia que se desenvolve no espaço e que, desse modo, escapa a qualquer dos objetos para habitar o espaço expositivo como um todo. Revela-se assim que os elementos da exposição são invariavelmente fragmentos. E a sensação dessa sua dispersão que ativa o espaço é confirmada se soubermos que os diversos elementos da instalação evidenciam ainda o processo perpetuado de perda e retomada da forma que caracteriza o trabalho da artista: ela destrói seus trabalhos assim que cessa sua mostra, fazendo-os voltar ao estado de matéria-prima.

O trabalho é gerido, portanto, por uma vivência de artista extremamente dura. O que se vê na galeria de fato é um hiato do trabalho – do seu não ver, do seu não lugar, do seu não formar, do seu não existir. Não se trata apenas de representar um lugar negativo, uma cenografia advinda do teatro de Beckett que a artista tanto admira, mas de um enfrentamento específico do fazer artístico do qual se apresenta a certidão negativa como exposição. A arte e sua experiência estão prestes a perder-se, já deixaram de ser. Os objetos expostos são tão estados da matéria-prima quanto restos desse enfrentamento; o que se expõe é o esforço de cada fragmento na direção do sentido, e para longe dele.

O processo da artista parte de infligir perpetuamente uma exclusão na qual a possível constituição de uma obra-prima, de um monumento ou mesmo de uma obra (como resultado e trajetória natural de uma vida de artista) concorre imediatamente com sua crítica destrutiva. É importante observar que se inverte aí o papel moderno da parceria produtiva entre obra de arte e crítica e, nesse sentido, seu trabalho nos coloca um problema histórico sobre o papel da autonomia e da teoria na prática artística. O que se nega no trabalho de Cristina é o estabelecimento de uma racionalização representacional ou pragmática dessas duas experiências, arte e crítica, uma para com a outra. Se algo da autonomia modernista transparece em elementos da formalização de Cristina, tais como as duplicações, figuras geométricas, a abstração dos allovers, a serialidade em grade (relações formais imediatamente se estabelecem com o minimalismo), deve-se imediatamente perceber que isso não traz qualquer conforto, triunfo ou futuro. Ao contrário, configuram o espaço como máquina distópica.

Cezar Bartholomeu

Paço Imperial
Praça XV de Novembro, 48
Centro - Rio de Janeiro
55 21 2215 2093
 
De terça a domingo, das 12 às 19h
Entrada Franca

Bistrô do Paço
De segunda a sexta, das 11h às 19h30
Sábados, domingos e feriados, das 12h às 19h
 
Restaurante Arlequim
De segunda a sexta, das 10h às 20h
Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h