Patrimônios
do Norte

Homenagem aos 81 anos do IPHAN
Curadoria Luciana Carvalho,
Marcelo Campos e Thiago Oliveira

A região Norte do Brasil, ocupando quase metade do território nacional, é formada pelos Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Seu povoamento remonta a, pelo menos, 14 mil anos, o que se reflete no seu notável legado arqueológico e no extenso repertório de conhecimentos preservado pelos numerosos povos e comunidades tradicionais que a habitam. Inteiramente abrangida pelo bioma Amazônia, ela comporta diversos ecossistemas e uma hidrografia tão inigualável quanto a sua diversidade biológica e sociocultural. Nos variados cenários regionais, natureza e cultura são combinadas nos modos de criar, fazer e viver que constituem patrimônios tão plurais quanto as próprias sociedades amazônicas. Reconhecendo os limites de qualquer forma de representação desse patrimônio, bem como a impossibilidade de exauri-lo no interior destas salas, esta exposição pretende destacar as contribuições materiais e imateriais de grupos humanos que, a partir do Norte, se fazem presentes da formação histórica e cultural do Brasil. Inspirada pela riqueza do patrimônio existente ao longo dos vales e interflúvios da calha do Amazonas, e ressaltando seu duplo caráter natural-cultural, a mostra navega das terras altas das fronteiras pan-amazônicas rumo à pororoca que se forma quando o rio encontra o oceano Atlântico. Ao optar pelo sentido inverso ao que fizeram colonizadores, missionários e naturalistas que registraram a região, procura enfatizar a importância da proteção do seu patrimônio cultural-natural como parte dos direitos humanos de seus habitantes do presente e das futuras gerações.

Texto da curadora Luciana Carvalho

 


EXPEDIÇÕES CONTEMPORÂNEAS

Falar em primeira pessoa é uma conquista que a arte exerce há alguns séculos. Distante do mito da objetividade científica, artistas lidam com a poesia dos acontecimentos. Em consideração à natureza, elaborou-se o interesse pelo sublime, algo que não caberia nos limites de um recorte. O sublime das paisagens do Norte maravilhou o olhar estrangeiro de Marcel Gautherot e Margaret Mee. A paisagem, como nos esclareceu Lévi-Strauss, só existe como recorte e invenção. Portanto, muito além do que se situa nos âmbitos da documentação, a arte já assumira a vontade de ficção. E sabemos que mesmo a etnografia entendera que o que se pode fazer diante dos fatos sociais é escrever cultura.

De outro modo, nas entrelinhas da poesia situam-se as denúncias, as críticas, o posicionamento em relação às urgências, como nas queimadas registradas por Frans Krajcberg. E uma imagem poderá, como poucos mecanismos, insuflar insurgências. Cláudia Andujar, por exemplo, conviverá por décadas com populações indígenas e auxiliará no recenseamento do grupo, registrando os que ainda sobreviviam à ganância por posses de terras.

Assim, pensar a poesia advinda de artistas que, em sua maioria, nasceram e vivem no Norte é conhecer a região por outros percursos. Lidar com mundos mergulhados, com a primazia da cor azulada, onde a noite passa a ser iluminada por estrelas. Pensar a espera nos leitos dos rios, a pesca, o banhar-se ou, em outros caminhos, a vaidade das “cheirosas”, moças que comercializam essências aromáticas e poções mágicas nas feiras e mercados populares. A arte, também, se aproximará de uma arquitetura irregular, cabocla, desde as madeiras das embarcações nativas, das casas em palafitas, às placas e sinalizações metálicas feitas à mão.

A arte que vem do Norte nos revela, sobretudo, a luz, colorida por artificialidades diversas, das gambiarras, dos neons, dos postes de eletricidade que tudo encharcam de melancolia. No giro da velocidade das câmeras fotográficas, captura-se a luz vertiginosa dos transes nos corpos religiosos, exauridos e extenuados pela fé, em suítes e lágrimas, nas procissões e terreiros.

Conhecer o Norte sob a ótica de expedições contemporâneas é exercer o “lugar de fala”. Aquele, onde artistas conseguem lidar com os próprios termos de quem toma posição e, em vez de se apropriar, se vê através das imagens.

Texto de Marcelo Campos

 


PATRIMÔNIOS INDÍGENAS DO NORTE

Dentre as inúmeras ações do Iphan no Norte do país, destacam-se, desde 2000 – ano da aprovação do decreto que instituiu o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial –, as iniciativas tomadas para o reconhecimento das Formas de Expressão, Saberes, Lugares e Celebrações indígenas como Patrimônio Cultural Brasileiro.

Os bens culturais de que trata esta exposição, registrados junto dos Wajãpi (AP), dos povos do Alto Rio Negro (AM), dos Enawenê Nawê (MT) e dos Karajá (TO), embora de regiões e matrizes culturais distintas, possuem uma afinidade conceitual de fundo que é aqui tomada como ponto de partida.

Conta a mitologia de alguns desses povos que a humanidade emergiu de um mundo anterior ao atual, subterrâneo. Desse mundo, passou ao patamar terrestre tendo aprendido conhecimentos fundamentais com os seres que não lhe acompanharam. Outros relatos detalham que foi com os animais que a humanidade adquiriu seus hábitos plenamente culturais. Essa é a famosa passagem da natureza à cultura, registrada por Claude Lévi-Strauss em suas Mitológicas. O universo assumiu, desde então, uma feição de patamares, dividindo-se nos níveis celeste, terrestre e aquático/subterrâneo. A humanidade diferenciou-se dos outros seres do mundo – rios, montanhas, florestas, animais. Nas práticas cotidianas e rituais contemporâneos, os índios revisitam o momento da ruptura, atravessam a passagem que deu origem à humanidade e reificam o diálogo permanente entre os seres e as camadas distintas que compõem o cosmos.

Tendo esse fundo mítico como ponto de partida, o componente indígena da exposição “Patrimônios do Norte” apresenta temas específicos como o conhecimento agrícola e territorial dos povos do rio Negro, a arte gráfica dos Wajãpi, a cerâmica karajá e o conhecimento ritual dos Enawenê Nawê.

Dadas as características do material encontrado na pesquisa que deu origem à exposição, adotou-se o partido de compor o tecido expositivo com fotografias, objetos etnográficos e material audiovisual.

Por meio das fotografias, apresentamos os contextos em que as manifestações culturais salvaguardadas se encontram, oferecendo ao espectador as paisagens humanas e naturais em questão. Através dos objetos etnográficos, apresentamos elementos concretos que traduzem e condensam aspectos desses sistemas culturais. É possível, assim, ver de perto a textura do arumã de que são feitos os implementos usados no processamento da mandioca no Alto Rio Negro, ou a riqueza cromática da cerâmica e dos adornos de festa karajá. Já por meio da apresentação do material audiovisual, registrado ao longo dos processos de pesquisa que ensejaram as candidaturas desses bens culturais ao título de patrimônio nacional, buscamos colocar em cena as vozes dos protagonistas desses registros, os membros das populações indígenas que atuaram com o Iphan na elaboração dos dossiês, descrevendo o conhecimento a ser salvaguardado e estabelecendo as políticas de promoção patrimonial a serem desenvolvidas pelo Estado brasileiro.

Texto de Thiago da Costa Oliveira

 


DIVERSIDADE?

Diversidade é uma expressão desafiadora, amplamente discutida e repetida nos últimos tempos. Fala-se em diversidade cultural, diversidade biológica, diversidade étnica, linguística, religiosa etc., no entanto, no caso do Brasil, considero uma expressão absolutamente apropriada. Acompanhando nossa gigantesca extensão territorial, somos, sem dúvida alguma, diversos e múltiplos. E o Iphan, há 81 anos, vem enfrentando o desafio de preservar e salvaguardar o Patrimônio Cultural do país, em contexto tão diverso e múltiplo. Para tanto, é fundamental que as manifestações culturais referenciais de todas as regiões e recantos do Brasil sejam respeitadas, distinguidas e difundidas pelo povo brasileiro.

A escolha do Paço Imperial para sediar a presente exposição não foi aleatória. Como o objetivo é divulgar o Patrimônio Cultural do Norte, nada mais apropriado do que mostrá-lo e explorá-lo a partir do Centro Cultural do Iphan, provavelmente um dos mais emblemáticos edifícios históricos do país. O que se deseja é refletir sobre a sociobiodiversidade amazônica, enfatizando o que há de mais valioso em sua cultura, propondo o reconhecimento da indivisibilidade entre as dimensões do natural-cultural do patrimônio local.

Formada por sete estados – Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins –, a região Norte possui manifestações culturais típicas e ímpares, e que compõem a identidade do povo brasileiro, como a arte Kusiwa – pintura corporal dos Wajãpi, do Amapá, ou o Círio de Nazaré, de Belém; expressões culturais já reconhecidas como Patrimônio Cultural da Humanidade. Portanto, o Iphan quer mostrar para o Brasil o que o Brasil tem de melhor. É o Patrimônio Cultural que nos une! Em tempos de afirmação de tantas diversidades, nunca é demais lembrar que só se protege aquilo que se ama e só se ama aquilo que se conhece.

Texto de Kátia Bogéa
Presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan

Paço Imperial
Praça XV de Novembro, 48
Centro - Rio de Janeiro
55 21 2215 2093
 
De terça a domingo, das 12 às 19h
Entrada Franca

Bistrô do Paço
De segunda a sexta, das 11h às 19h30
Sábados, domingos e feriados, das 12h às 19h
 
Restaurante Arlequim
De segunda a sexta, das 10h às 20h
Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h