Elisa de Magalhães

Exposição
Curadoria
Viviane Matesco

Exposição sintetiza a trajetória de Elisa de Magalhães, cuja obra implica a relação entre corpo e arte contemporânea. Os mecanismos de controle e disciplina impostos ao corpo, pensados frente à sua hipervalorização e superexposição, são questões fundamentais para a atualidade. A mostra permite refletir sobre essa dicotomia, como também compreender a diversidade artística na qual o corpo desejante pode ser expresso. Os trabalhos giram em torno da questão do nu e do desnudar, seja a partir de séries fotográficas, instalações, vídeos ou ações. Todos envolvem a imagem de um corpo nu relacionado ao desejo. Este pode ser sujeito ou objeto da representação, ou os dois ao mesmo tempo; é sujeito quando a imagem mostra o que se deseja, é objeto quando a imagem mostra o desejo em obra (Nancy). O olhar impõe distância, mas a vivência do erotismo em nossos corpos seduz, nos toca, nos penetra.

Essa é a situação da obra Exposição: caso 1, de 2003, ação desenvolvida na terceira mostra do projeto Orlândia, na qual a artista montou um estúdio fotográfico em um caminhão de transporte de obras de arte estacionado em frente à casa expositiva. Vestida de preto, em um ambiente forrado de preto e com pouca iluminação, convidava os visitantes/participantes da ação a posar para um retrato despidos, baseando-se em imagens de nus a serem escolhidos dentre vários livros de história da arte dispostos em uma mesa. Em seguida, enquanto a pessoa se vestia, a fotografia era revelada (desfocada em função da câmara modificada para o processo pinhole) e depois ficava exposta em uma parede da mostra. O desejo de se exibir nu, da própria exposição pública, envolve um interdito social que, uma vez transgredido, implica carga erótica (Bataille). Nesse sentido, o exibicionismo é uma forma de excitação proveniente da exposição, do exibir o corpo, ou parte dele, para o outro. O fato de Elisa de Magalhães relacionar o erotismo dessa transgressão ao gênero milenar do nu acrescenta uma camada mais profunda à compreensão do trabalho, uma vez que essa tradição impõe um olhar assexuado, moral e espiritualizado. O nu não representava um corpo, mas a ideia abstrata da humanidade, no entanto essa universalidade é problemática; a sexualidade dos corpos, e sobretudo do corpo feminino, sempre foi uma questão desde os tempos de Lilith. Criada a partir da poeira, junto a Adão – portanto, antes de Eva –, Lilith negou-se a deitar sob ele na hora do sexo por não se sentir inferior e, em protesto, abandonou o Éden. Por rebelar-se, foi encarada como demoníaca. Tal como Carmen, personagem da ópera de Bizet, a figura feminina se assenhora do próprio desejo.

Por que então essa interdição milenar à nudez? A criança e o indígena não sentem vergonha e, neste caso, a nudez é tida como pura. A nudez não é, portanto, um ser, nem mesmo uma qualidade em si: é sempre uma relação, um termo relativo. A nudez na cultura “ocidental” é inseparável de uma assinatura teológica (Agamben). Teólogos como São Tomás de Aquino explicaram que o que é visível diante de nós – a natureza dos corpos – só deveria ser visto como portando o traço de uma semelhança perdida, a semelhança de Deus perdida no pecado. A transgressão de Adão e Eva introduziu a noção de que o corpo é a sede dos pecados da carne. A nudez sem vergonha deve ser então coberta. Com o pecado original, o homem perde a graça divina: fica nu.

Qual seria então o significado do desnudar? O que o nu revela é ser a própria revelação, só é nu no gesto que desnuda. Por isso, a imagem é seu elemento e sua pele é sempre a pele de uma imagem (Nancy). Pintar, desenhar ou fotografar o nu revela cada vez o mesmo desafio: representar o irrepresentável fugidio do colocar a nu, o pudor que pontua toda revelação e a indecência que revela a fuga. Nesse sentido, o modelo modeliza não o corpo, mas a tensão na qual a nudez coloca o corpo com ele mesmo. É esse o sentido do trabalho de Elisa de Magalhães: a experiência simultânea da interdição e da transgressão. Aqui se concentra a energia do erotismo. A transgressão suspende a interdição sem suprimi-la; daí o gozo (Bataille). O nu expõe essa duplicidade: o pudor que retém e a obscenidade que solta, um não vive sem o outro. Daí ser necessário ver o nu e o desnudar do ver como um encontro entre o corpo e o mundo

Viviane Matesco
curadora

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Entrada Franca

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De segunda a sexta, das 11h às 19h30
Sábados, domingos e feriados, das 12h às 19h
 
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De segunda a sexta, das 10h às 20h
Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h