INÊS DE ARAUJO

Grafias do tempo – Cadernos de Desenho
Curadoria Marcelo Campos

A exposição Nem consolo, nem remorso, trás um conjunto recente de trabalhos com cadernos de desenho de Inês de Araujo, desenvolvido entre 2017 e 2019, e dois trabalhos anteriores, de maior escala, de 2008 e 2009. Uma parte do conjunto, 22 cadernos,  alternando entre os formatos de 28cm x 44cm e 36cm x 55cm, é apresentada sobre quatro mesas, que ocupam nove metros ao longo da sala, a outra, na parede.

O recorte proposto, da série iniciada em 2012, chama atenção para a prática do desenho como uma escritura do cotidiano. Convidando à leitura de sua condição processual, os cadernos dispostos sobre as mesas sugerem narrativas de uma linha inacabada pontuada por marcas gráficas, vazios, gestos e seus rastros.

 


 

Nem consolo, nem remorso

“A arte nos oferece enigmas, mas, felizmente nenhum herói”
(Maurice Blanchot)

 

“… para vós arranco algumas hediondas páginas de meu caderno de condenado
(A. Rimbaud)

 

Viver num istmo de tempo. Esta é a sensação que temos ao folhearmos os cadernos de desenho de Inês de Araujo. A própria disposição imposta pela encadernação faz com que nos acostumemos a olhar algo que já começou e que não conseguiremos ver chegar ao fim. Início e fim, talvez, não façam parte dos interesses da artista. De outro modo, podíamos buscar nas bordas, nas margens, algum indicativo de contenção que nos deixasse mais apaziguados com a ideia de que o todo estaria circunscrito a partir das fronteiras, ou seja, parte do que, na arte, conferimos, como responsabilidade, às molduras, aos limites. Mas, também, não nos convencemos, pois, os traços da artista chegam, muitas vezes, ao alcance das páginas. Percebemos, então, que o fato ao qual nos confrontamos na produção dos desenhos de Inês de Araujo nos faz partícipes de um intervalo de tempo, um istmo, no qual os gestos frequentam uma condição de fragmento, cumprindo desejos conscientes de desvencilhar-se do porvir.

Habitar um hiato. Ao nos dedicarmos aos trabalhos de Inês de Araujo percebemos, de certo modo, as vicissitudes envolvidas em tarefas condizentes a duas acepções da criação presentes nos estudos de Maurice Blanchot, ser “um pródigo sem medida” ou um econômico e não “desperdiçar nada de seu gênio”.  Aqui, nos âmbitos desta produção, por um lado, a desmesura passa a habitar o espaço de ação, um caderno rabiscado. E não estamos diante de experimentações. Por outro lado, a insistência em não se tranquilizar ao buscar um lapso de tempo, assume um gesto inquieto de sobreviver a um infinito. Sim, “um infinito”, um, dos muitos possíveis, pois a tarefa de desenhar, rabiscar continuamente, seguir direções variadas fazem dos modos de organizar os pensamentos, um impulso de recomeçar. Mas, com que sentido, em que direção? A produção da artista emerge do próprio ato único, circunscrito ao espação e constituído de múltiplos gestos. Há algo do movimento da dança, nestas inquietações.

Potencializar derivas e deambulações. Com isso, Inês de Araujo perscruta as armadilhas dos duplos. O duplo da imagem. O duplo da felicidade. Para além do automatismo, depois de abandonar a ilusão figurativa, percebemos, nos desenhos da artista, traços que não são contornos, pois não se destinam a duplicar uma figura, uma imagem. Antes, seus gestos são derivas do corpo que geram derivações de encontros, interseções de linhas, nunca planos, já que os vazios ativados permanecem recebendo o ar, o oco, como as tramas de um simples acúmulo de rotas. Sem ser contorno, não haverá duplos, imagens associativas, e, com isso, será necessário conduzir-nos a outras exigências diferentes das que dotamos ao regozijo das imagens.

Escalar abismos, ativar e partilhar a dor. Conviver com a falácia da expressão que jamais teve um caminho definido entre a subjetividade e a forma. Menos pathos do que deambulação, a arte de Inês de Araujo, de certo modo, sufoca a alegria. Sim, a arte nos torna, em alguma medida, condenados, “condenados” ao sentir, a buscar relações, criar escolhas por determinadas asperezas, oferecer dispositivos de partilha com alteridades inimagináveis. A insistência do contato com porosidades, marcas, vestígios nos torna experimentados em abrir caminhos, conviver com as extremidades, os ocasos e cumes, como no pensamento Nietzscheano, e, ainda assim, construir pontes entre abismos, já acumulando a experiência de escalá-los.

Istmos, hiatos, derivas, abismos são, agora, possíveis bússolas para sistemas mínimos de orientação, já que, ao escolher a condição do caminhar, serão liberados os tempos de começar e terminar, mas não nos furtaremos em sentir a obscuridade “onde a boa ou a má consciência não trazem nem consolo, nem remorso”, nos termos de Blanchot.

Podemos, então, assumir a condição de liberdade frente à razão nos aproximando, por instantes, das agruras dos andarilhos.

Texto Marcelo Campos

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