Paiva Brasil

Percurso
Curadoria Luiz Chrysostomo

“(…)pense não na forma, mas no ato de formar” 

Paul Klee – Pedagogical Sketchbook

 

A principal tarefa dessa exposição não é apenas dividir com o público as belas estruturas e composições de cor de Paiva Brasil, ao longo dos ultimos 65 anos. Além do tributo ao seu pensamento estético, faz-se necessário ressaltar sua contribuição como artista ímpar, independente, e que ao longo de toda trajetória ergueu uma obra inovadora, instaurando um construtivismo lúdico, flertando com a emoção e os enigmas do olhar. 

Discreto, nascido em Campos dos Goytacazes, Estado do Rio de Janeiro, Paiva faz parte, por tradição e direito, de nossa primeira geração construtivista. Ainda que não estando vinculado formalmente a nenhum dos movimentos abstrato-geométricos, poderia ter-se filiado ao Grupo Frente na tradição de Rubem Ludolf, João José ou Décio Vieria. Entre o final dos anos 1940 e início dos anos 1950 estudou no Liceu de Artes e Ofícios. Posteriormente, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, dedicou-se ao desenho e a composição gráfica com Santa Rosa e pintura com Samson Flexor, pioneiro do Atelier Abstração em São Paulo, primeiro grupo de arte geométrica do país. 

Participante de Bienais e diversos Salões Nacionais, dentre as quais se destaca o III Salão Nacional de Arte Moderna (salão Branco e Preto), premiado com viagem ao exterior no I Salão Nacional de Artes Plásticas (Rio de Janeiro), Paiva desenvolveu um léxico próprio e consistente. Sem ser adepto de um evolucionismo fácil, construiu um caminho onde sugere possibilidades, com elegância transmutou a forma, elegeu cores. 

Em sua “ Homage “ ao 5 , série que se inicia no fim dos anos 1960 com Emblema (1968), presente nesta exposição, Paiva reiventa o número e constrói sua poética matemática, como bem notou Walmir Ayala. Ainda que o uso dos algarismos esteja presente desde os primórdios das vanguardas européias cubistas e dadaístas, o artista segue caminho próprio redefinindo uma nova linguagem plástica. O que lhe atrai é a exata medida do manejo gráfico, deslocando reta, semi-círculos e círculos inacabados em construções no espaço. Pinta, desenha com normógrafos, carimba e esculpe em madeira. Sutilmente recodifica e ressignifica o 5, inaugura um elemento externo de representação. O 5 não é mais o 5. Brinca com a tonalidade, esfuma, repete sem monotonia, integra. Não é mais algarismo, mas uma elaboração geométrica. Sua apropriação não provém da matriz da arte conceitual dos anos 1970 ou do Pop de Robert Indiana. É o 5 de Paiva. 

A cor explode a partir do final dos anos 1970 e início dos 1980. Ela não mais o abandona e amplia seu universo. Nunca será ambivalente, mas sempre reflexiva. Como Albers pontuou no clássico “Interaction of Colors” a cor é o meio mais relativo e instável na arte. A mesma cor evoca inúmeras leituras, bastando para tal sua justaposição em relação às demais. Não existe a cor absoluta , mas a cor em relação a outra cor. Em seus “exercícios” albersianos, Paiva “escreve a cor” com o uso de um símbolo gráfico, a letra. Inicialmente através de acumulações superpostas (“Coleturas”), definindo planos de cor que se interagem, depois inova com o uso construtivo da letra A. Como antes, introduz uma nova poética , cria ritmos e labirintos para o olhar, trança as cores em sutis encontros que extrapolam a expectativa comum. Sugere e pinta códigos de cor, brinca e desafia a visão do espectador. São os jogos da cor, os jogos da Arte. 

Em seu percurso Paiva nunca deixou de surpreender. Ao lado de sua artesania no atelier, onde reconfigura telas e suportes, exigência própria que não admite terceirizar, criou novas possibildades para o emprego da cor e da forma. Descortinar o verso da obra nos remete a uma outra dimensão histórica do fazer. Assim como nos “Vertebrados”, seus articulados “Bichos da Cor”, elaborou em madeira estruturas e encaixes móveis onde o espectador precisa trabalhar. Agora ele não mais se exercita com os olhos, mas com as próprias mãos. Nos Quadros-Objetos, produto dessa longa vivência, se desobriga em escolher como as obras devem estar expostas. Vaza a tela e deixa o espaço ser parte de sua solução pictórica, como se ali estivesse um respiro necessário para sua própria sobrevivência. Na série Tangentes , objeto de sua última exposição individual, alcança uma síntese onde muitos dos elementos aqui descritos se juntam de forma harmônica e delicada. 

A presente e oportuna exposição no Paço Imperial celebra a inventividade e o rigor desse artista sensível. Permite inscrever Paiva não somente no panteão de nossos coloristas, mas também na tradição de um construtivismo autóctone e vibrante. 

Luiz Chrysostomo
Curador

 

Paço Imperial
Praça XV de Novembro, 48
Centro - Rio de Janeiro
55 21 2215 2093
 
De terça a domingo, das 12 às 19h
Entrada Franca

Bistrô do Paço
De segunda a sexta, das 11h às 19h30
Sábados, domingos e feriados, das 12h às 19h
 
Restaurante Arlequim
De segunda a sexta, das 10h às 20h
Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h