Jonas Arrabal

Os Vivos e os mortos

Mais informações em breve.Os que têm memória são capazes de viver no frágil tempo presente.
Os que não a têm, não vivem em nenhuma parte.
Patricio Guzmán

Uma arqueologia capaz de revolver os múltiplos estratos do terreno, da memória, do tempo histórico, para além da busca de origens ou da proposição de prognósticos, evidenciando assim sua condição de ser, e que reconhece em seu desejo motor os diferentes meios de adensar a estreita temporalidade do presente: eis a que se propõe esta exposição de Jonas Arrabal. Com o deslocamento de uma árvore morta e de outros resíduos/artefatos coletados, inicialmente localizados na Ilha do Japonês, em Cabo Frio, para o Paço Imperial, no Rio de Janeiro, percebemos a partir dela tanto uma indagação sobre a existência e os sentidos que damos para as coisas e lugares, quanto uma ênfase sobre os processos de migração e os modos pelos quais eles produzem encontros e conflitos, fragmentos elegíveis de memória e apagamentos concretos, conscientes ou não.
Nascida de um processo artificial, a Ilha do Japonês guarda pouco de suas origens. Ligada a princípio ao escoamento do pescado, tornou-se, no decorrer do tempo, um lugar paradisíaco, de águas calmas e cenários exuberantes, frequentada por grande fluxo de turistas e moradores da região, em busca de lazer e da prática de esportes. É corrente a afirmação de que seu nome se deve à existência na ilha de um antigo morador de suposta origem japonesa que para ali migrou e viveu até sua morte, e cuja história poderia ser associada também à da presença das casuarinas, espécie arbórea inserida na região desde o século 19, tornando-se elemento emblemático na paisagem do litoral norte fluminense. Embora bem aclimatada ao local, sua proliferação tem gerado muitos conflitos, por ser considerada uma planta invasora e supostamente colocar em risco as espécies nativas. Índices e metáforas dos processos de deslocamento, passados e atuais, forçados e desejados, essas narrativas reforçam o gesto do artista, que poeticamente transporta para outro sítio elementos da ilha, aludindo a vários outros transcursos migratórios que atravessam a história da humanidade.
A epígrafe no início do texto, retirada do documentário Nostalgia da luz (2010), do cineasta chileno Patricio Guzmán, uma das referências importantes do artista na exposição, coloca-nos diante do dilema da memória, do jogo entre reminiscências e esquecimentos, entre aquilo que ora se revela, ora se oculta, e a relação desse processo com o lugar. Resíduos que constituem o arcabouço e o imaginário de nossas histórias, que conectam localidades a pessoas e constituem suas múltiplas vivências. Algo dessa atmosfera se apresenta nos trabalhos aqui reunidos por Jonas Arrabal, ao articular camadas de tempo e diferentes sedimentações matéricas, artefatos de outrora e de um tempo não muito distante, aglomerados em variados estratos e agora reorganizados; narrativas que reforçam o desejo de olhar para algo, acima ou abaixo, à frente ou atrás, à procura de sentidos para a vida e a morte. O que vemos quando olhamos para o que está diante de nós? E o que não vemos?
Diante de nós, uma casuarina morta, já tombada, parecendo contrariar uma de suas características mais marcantes: ser extremamente resistente e tolerante ao vento e à salinidade do mar. Diante de nós, registros da existência humana e de sua intervenção sobre a natureza, fragmentos que perdem e ganham valor, tornam-se refugo ou relíquia. Diante de nós, a língua e a linguagem, a fala e a não imagem, o narrar de uma e de várias existências. Diante de nós, uma espécie de “lápide”, cuja inscrição nos coloca em relação a um senso de comunidade histórica. De que nos fala essas presenças? O que carregam consigo aqueles que se deslocam? Quais encontros (e desencontros) esses deslocamentos proporcionam? Investigar essas diferentes camadas, trazer à luz algo soterrado nas profundezas do passado, reconduzir memórias pessoais e coletivas, são processos aqui insinuados por Jonas Arrabal, sem o intuito de obter respostas pragmáticas ou resultados plausíveis para esse contínuo ato de escavar (os estratos de terreno, da memória e do tempo histórico).
Afinal, nenhum deslocamento é apenas geográfico. Algo da presença continuamente escapa ao pensamento.

Ivair Reinaldim
Curador

 

Paço Imperial
Praça XV de Novembro, 48
Centro - Rio de Janeiro
55 21 2215 2093
 
De terça a domingo, das 12 às 19h
Entrada Franca

Bistrô do Paço
De segunda a sexta, das 11h às 19h30
Sábados, domingos e feriados, das 12h às 19h
 
Restaurante Arlequim
De segunda a sexta, das 10h às 20h
Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h