Ai Weiwei

Raiz
Curadoria Marcello Dantas

A RAIZ WEIWEI

A história deste projeto remonta a 2010. Meu interesse no trabalho de Weiwei começou quando entendi as conexões que ele havia feito ao atrelar a produção de arte à transformação social e coletiva. Quando vi as experiências que Ai Weiwei havia desenvolvido na China, senti que elas poderiam funcionar na América Latina se aplicadas com ousadia, criatividade e iniciativa enérgica. Contatei Ai Weiwei, mas algumas semanas depois ele foi preso e o projeto, deixado de lado. Durante os últimos anos, mantive contato com ele, e as conversas que tivemos e o que li sobre ele me fizeram perceber que o homem demandava uma missão de outro tipo. A América Latina é um lugar com necessidade histórica e ainda urgente de mudança social, e mesmo que tenhamos muitas teorias sobre isso, muito poucas práticas têm, de fato, obtido sucesso em gerar qualquer mudança. A possibilidade de inocular algum tipo de “vírus criativo” neste contexto pareceu bastante atraente. Tanto na história social como na da arte, muitas vezes o agente de mudança vem de um elemento remoto, que entra em contato com um território novo. Weiwei aplicou um modelo de ativismo social na produção de arte e, simultaneamente, pôs a arte no centro dessa ação. A questão era: a prática artística pode provocar mudança? Para entender Ai Weiwei, é preciso conhecer seu passado e suas origens. Seu pai – o poeta Ai Qing, um libertário e membro da Revolução Chinesa – caiu em desgraça na nova sociedade que se configurou e foi enviado, junto com sua família, para campos de trabalho na área rural da China, logo depois do nascimento de Ai Weiwei. A influência do pai em sua vida é imensa. Uma das imagens mais fortes para o artista é a de quando Ai Qing decidiu queimar seus livros diante do filho, para evitar mais punições caso o regime viesse à sua casa – eram principalmente livros de arte. Pai e filho fizeram uma fogueira e, página por página, foram queimando os livros, como se se despedissem daquelas imagens e palavras. Um ato de profunda violência para um poeta e intelectual e, acredito, um ato fundador para seu filho, como artista e ativista. Uma maneira de ler as obras do artista chinês é compreendê-lo em seus múltiplos pontos de vista, como um intérprete das culturas chinesa e ocidental. Ele encontra maneiras de manter ambiguidades, expressando-se de forma explícita para um dos lados (seja o Ocidente ou o Oriente), e de forma velada para o outro. Exemplo disso são as fotografias e papéis de parede supericônicos e massivamente reproduzidos de Finger [Dedo], que têm um significado muito direto na maioria das culturais ocidentais, mas são vazios de sentido para os chineses, para quem gestos ofensivos não são normalmente utilizados e para quem esse, em particular, tem menos significado. Em outra modalidade, seu profundo conhecimento de carpintaria chinesa antiga lhe permite criar verdadeiros quebra-cabeças visuais com materiais que não parecem particularmente complexos para quem vive numa sociedade ocidental, acostumada ao uso de pregos e cola em madeira, mas que, para um chinês instruído, têm complexidade impressionante. As imagens inaugurais de Ai Weiwei soltando o vaso da Dinastia Han são, para qualquer ocidental, imagens perturbadoras de desrespeito e uma atrocidade em relação à memória e à história. Para um chinês acostumado aos absurdos da Revolução Cultural, todavia, tal gesto não é tão chocante. O convite para Ai Weiwei vir ao Brasil era também um convite para uma interpretação e para a realização de novos trabalhos. Nesse modelo, ele seria capaz de experimentar a cultura local e digeri-la a seu modo, e o Brasil teria a chance de entender e experimentar as modalidades e o processo criativo do artista. Por outro lado, nós nos tornamos mestres na arte de absorver e digerir à nossa maneira influências exteriores. O convite não foi para uma refeição cotidiana: foi para um banquete mutuofágico, em que se come e se é comido pelo outro, em que cada lado devora o outro – seu corpo, sua alma e sua energia.

Quando raízes – raízes antigas, mortas, de árvores que nãoexistem mais – surgiram em nosso caminho, Weiwei disse que pelas raízes podemos descobrir como é uma árvore. A busca por seu significado desenterrou e inventou – de fato, inspirou – o título desta exposição: Raiz. Essas árvores são a evidência de uma conexão muito antiga com o solo, fonte de toda cultura. A prática de Ai Weiwei ao longo de sua carreira tem sido a de revelar raízes perdidas e evidências de culturas ameaçadas, primeiro na China, nos projetos sobre refugiados, e agora no Brasil. Reconectar-se às raízes e encontrar o elo perdido nos permite reencontrar uma ancestralidade de que nos esquecemos, que parece perdida. Weiwei encontrou o objeto de sua busca no meio dessas raízes e um significado comum emergiu. Este jogo é um grande modelo para promover o contato, o entendimento e para desafiar as noções pré-concebidas de ambos os lados. Com fricção, barulho, um território incerto a ser descoberto e uma mistura de temperos nunca antes combinados, produzindo um novo sabor para a arte de Ai Weiwei e para nossa cultura. E com a dor e o prazer de uma mordida dada e uma mordida recebida.

 

Marcello Dantas
Curador

 

Paço Imperial
Praça XV de Novembro, 48
Centro - Rio de Janeiro
55 21 2215 2093
 
De terça a domingo, das 12 às 19h
Entrada Franca

Bistrô do Paço
De segunda a sexta, das 11h às 19h30
Sábados, domingos e feriados, das 12h às 19h
 
Restaurante Arlequim
De segunda a sexta, das 10h às 20h
Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h