Tinho

Os Sete Mares
Curadoria Saulo di Tarso

Os 7 mares da pintura

“Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.”

Platão. A República. Livro VII.
Quando Édouard Manet visitou o Rio de Janeiro em 1849, ninguém poderia imaginar que a arte inventaria tantas tendências e movimentos, dividindo realidade figurativa e abstração; que o mundo se comunicaria em tempo real e que a pintura seria o ponto de partida para a fotografia, o cinema, o vídeo e as redes mundiais de computadores. E que, exatos 170 anos depois, na mesma cidade, estaríamos rediscutindo a pintura através de um artista para o qual as fronteiras territoriais não existem mais. É o caso de Walter Tada Nomura – Tinho, e os 7 Mares, no Paço Imperial.
Da “Alegoria da Caverna” de Platão (380 a.C.) ao princípio da câmara escura (1554), às invenções do livro (Pi Sheng em 1405 e Gutemberg em 1455), à litografia (1796), à fotografia (de Angelo Sala à Joseph Niépce, entre 1604 e 1826), até que Hércules Florence, francês radicado no Brasil cunhasse o termo “photographie”, quando chegamos ao cinema (do cinetoscópio de Thomas Edison ao cinematógrafo dos irmãos Lumière, 1891 à 1895) e, finalmente, à rede mundial de computadores — Internet — por volta de 1980.
Entre luz, eletricidade e telepatia, deixamos para trás o tempo lento das comunicações para falar em tempo real entre 8,7 bilhões de habitantes no Planeta. Dentre todas as invenções, a afirmação do psicólogo Hugo Mustemberg, um dos primeiros teóricos do cinema, já negava, em 1916, a possibilidade do efeito do movimento produzido no cinema resultar de fenômenos retinianos. Mustemberg acreditava que tudo acontecia na fase neural do processo de percepção visual. A crença de Mustemberg estava correta. É desta percepção ampliada ao modo coletivo de processos neurais que falam os 7 Mares, de Tinho. Um tecido biodinâmico liga o espaço real às redes neurais coletivas, de indivíduo a indivíduo, de modo direto, através de relações antropológicas em comum. Liga quem leu, viu, ouviu, percebeu, vestiu, vivenciou e percorreu os espaços da vida através de uma determinada cultura e seus objetos, que hoje vêm sendo substituídos pelas redes digitais, como, por exemplo, os livros e skates que contêm uma filosofia da mobilidade à parte.
Quem vê as pinturas de Tinho ativa a própria memória sobre aquilo que vê, amplia no mundo imediato a celebração de um universo da cultura material e dos costumes que integram diversas gerações. E que, vistas como ele pintou, recriam a força destas memórias culturais no presente. As pinturas de Tinho são, ao mesmo tempo, a descrição e a vida do tempo e do espaço e das relações, do limite entre culturas e mídias — por exemplo, livro e literatura, discos e sonoridade. São obras que elevam o ver para o estado de sentido e consciência.
Não podia se esperar menos de um artista que, além de dominar a pintura tanto em termos realistas como abstratos, possui a experiência da rua, o domínio sintático e simbólico do universo da arte e do graffiti como circulação real da cultura contemporânea e seus objetos além da imaterialidade em diversas cidades do mundo. Fenômenos da nação global, que espelham, no minuto digital, milhões de anos de vida do espaço real e topológico.
Ver a pintura de Tinho é levar a pintura para o lado de fora da pintura, como se não houvesse mais separação entre arte e realidade. Tinho simplesmente chegou ao lugar da obra em que arte é vida e vida é obra, sem distinguir o que ele viu daquilo que nós vemos. Ver sua obra é descobrir o oitavo mar, é perceber aquilo que nos liga diante de tudo o que ele percebeu, criando uma série única, rara e singular da pintura recente, na qual estamos — ele como artista e nós enquanto parte vida de sua própria obra — rompendo a mera espectatorialidade.
Realidade aumentada para o lado de dentro e de fora, simultaneamente. O modo de ver de um artista atual, que não separa realidade natural e realidade abstrata, e possibilita dizer que chegamos às bases da pintura do século XXI em busca das paisagens interativas e antropológicas.
Ao mesmo tempo que deixa o século XX para trás, esta arte nova, derivada diretamente das passagens urbanas, amplia nossas chances cognitivas no mundo real, onde a pintura funciona como “lugar de encontro”, contrapondo as redes digitais na sua característica de realidade abstrata. Luz, e não sombra da nossa própria existência, esta mostra possui o caráter singular e transgressivo da linha do horizonte encontrada por Manet, horizonte muitas vezes transcendido pela Street Art que, como se vê através das obras de Tinho, fez a pintura reencontrar-se com a pintura, enquanto navegamos nosso olhar na composição dos 7 Mares. Gens trouvé além do objet trouvé. Arte encontrada além da arte. Arte sem fronteiras conceituais, imaginárias e dialógicas. Um quadro semelhante e semelhantes livres.
Saulo di Tarso | artista visual, curador da mostra.

Paço Imperial
Praça XV de Novembro, 48
Centro - Rio de Janeiro
55 21 2215 2093
 
De terça a domingo, das 12 às 19h
Entrada Franca

Bistrô do Paço
De segunda a sexta, das 11h às 19h30
Sábados, domingos e feriados, das 12h às 19h
 
Restaurante Arlequim
De segunda a sexta, das 10h às 20h
Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h