João José Costa

Geometria Passageira

João José Costa ( 1931 – 2014 ) pertenceu a uma feliz conjuntura artística brasileira. Aquela que começa a se formar, no pós-Guerra, sob a égide universalista das linguagens geométricas. Mário Pedrosa enunciou a máxima: a Vontade de Ordem. Entre nós, ela conhecia um paradoxal acento emancipatório. Numa sociedade pós-colonial, patrimonialista e patriarcal, que se reproduzia pelo informalismo, graças ao célebre “jeitinho”, a Ordem assumia um inesperado caráter transformador. Ganhar a modernidade – técnica, estética, social e existencial – passava por um gesto decidido de afirmação, quase de re-fundação. Tratava-se sobretudo de vencer e deixar para trás o renitente populismo nacionalista que impregnava nosso incipiente modernismo. As vanguardas construtivas brasileiras respiravam ainda, em certa medida, os heróicos ares democráticos de suas antecessoras dos anos 1910 e 20, De Stijl, o Construtivismo Russo e a Bauhaus. Devidamente aclimatada, a geometria voltava aqui a propagar um espírito de aventura.

Agente de primeira hora do Grupo Frente, no Rio de Janeiro promissor do início dos anos 1950, João José Costa participa desse clima saudável de renovação cultural numa clave fluente e discreta. Desde logo, por temperamento, rejeita a ortodoxia do Concretismo paulista. A irrecusável serialidade geométrica – a se contrapor e substituir a bonomia das chamadas Fases, como se a lógica do trabalho de arte seguisse mansamente o ritmo do cotidiano – toma, entretanto, um tônus de razão temperada. Ao se propor determinada combinatória formal, o artista não tenciona esgotá-la, e sim fruí-la, sustentá-la em aberto. O que significava, bem ao gosto da época, atender a uma das exigências básicas da modernidade: aderir e incentivar o espírito de disponibilidade.

A geometria – na origem, a humana mensuração da terra – abre caminho  para uma combinatória imaginativa que, justo por abolir o capricho arbitrário, torna viável o encontro entre sujeito e objeto, homem e mundo. As sutis e bem moduladas seriações dos desenhos e telas de João José parecem buscar, repetidamente, a felicidade desse encontro. As suas cores, em tons mate, às vezes mais rápidas e puras, não convidam à contemplação introspectiva: funcionam, isto sim, como Sinais, estímulos perceptivos, destinados a manter viva a conversa com o espectador. Do princípio ao fim, se algo distingue de pronto a obra, é sua natureza coloquial. A escala íntima nos chama para perto desses esquemas e variações geométricas que buscam sempre a mobilidade, como a nos persuadir de que mundo é estrutura em aberto e pede um olhar inteligente e curioso.

Por isso mesmo, João José não será o pensador profundo das figuras geométricas platônicas, realidades autônomas a demandar a eterna contemplação intelectual. Tampouco será o libertário neoconcreto com sua ânsia de envolver, libidinalmente, arte e vida. Podemos muito bem enxergá-lo a se apropriar e deixar-se seduzir por certa configuração formal que trata de flexibilizar de modo a não a encerrar nos limites do quadro. Reparem: ele parece querer estendê-la ao espaço comum. Muito cedo, o artista domina a sintaxe construtivista para desenvolvê-la, à sua maneira civilizada e despretensiosa, ao longo de meio século. De início, como era mandatório à época, inexistiam títulos que, eventualmente, viessem a desmentir a índole abstrata das obras. Com os anos, os títulos aparecem só para reforçar o senso de humor intrínseco a esse fazer, a um tempo, sistemático e desanuviado. E ainda, se não me enganam as primeiras impressões, a revelar certo distanciamento irônico frente ao risco de academicismo que fatalmente paira sobre uma já secular arte construtiva. De todo modo, títulos espontâneos e saborosos, que refrescam o tônus afetivo desses exercícios geométricos que praticam e divulgam um modo de ser moderno: viver no presente, atento ao futuro.

 Ronaldo Brito 

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