Marcel
Gautherot

Brasil: Tradição,
Invenção

Curadoria Sergio Burgi e
Samuel Titan Jr.

Marcel Gautherot (1910-1996), fotógrafo francês que viveu a maior parte de sua vida no Brasil, produziu extensa documentação fotográfica sobre o país. Viajando por todo o território brasileiro, construiu uma obra de extraordinária qualidade estética nos dois domínios que privilegiou − a fotografia etnográfica e a fotografia de arquitetura.

Parisiense, filho de pai operário e mãe costureira, aos quinze anos ingressou no curso noturno da École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs, começando a trabalhar com design e arquitetura de interiores. Na década de 1930, atuou como arquiteto e fotógrafo no Museu do Homem, em Paris. Conviveu e colaborou com os integrantes da agência fotográfica Alliance Photo, como René Zuber, Emeric Feher, Pierre Boucher e Pierre Verger. Em 1936, viajou a serviço do museu para o México e, em 1939, para a região norte do Brasil (Amazônia e Pará). Com a eclosão da guerra na Europa, serviu o exército francês em Dacar e, depois do armistício, retornou ao Brasil, estabelecendo-se em definitivo como fotógrafo no Rio de Janeiro.


Na então capital do país, Gautherot logo formou um círculo de relacionamentos que lhe permitiu inserir-se rapidamente num meio de intelectuais e artistas semelhante ao que frequentara na década anterior na França. Nomes como Rodrigo Melo Franco de Andrade, Carlos Drummond de Andrade e Lucio Costa – reunidos no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), criado em 1937, vinculavam a preservação do patrimônio colonial brasileiro à consolidação da arquitetura moderna no Brasil e à construção de uma nova identidade nacional.

A formação de Marcel Gautherot como arquiteto decorador e sua experiência museográfica levaram Lucio Costa a incumbi-lo, ainda no início dos anos 1940, de organizar o acervo e a exposição permanente de estatuária do recém-constituído Museu das Missões, no Rio Grande do Sul. A partir de então Gautherot tornou-se um colaborador permanente do Sphan e percorreu todo o país fotografando edifícios históricos, festas populares, danças, artesanato e atividades folclóricas de diversos estados brasileiros, principalmente da região Nordeste.Estes trabalhos o levaram também a atuar junto à Comissão Nacional do Folcore (criada em 1947) e à Campanha de Defesa do Folclore Nacional (lançada em 1958), ambas capitaneadas pelo historiador Edison Carneiro.

Ao mesmo tempo, tornava-se o principal fotógrafo da arquitetura moderna no país, dedicando-se em especial ao registro dos grandes projetos de Oscar Niemeyer, como o conjunto arquitetônico da Pampulha e a construção de Brasília. Com Niemeyer manteve uma estreita e duradoura amizade e colaboração, marcada por afinidades estéticas e políticas, em uma relação muito semelhante à colaboração do fotógrafo Lucien Hervé com Le Corbusier. Com Burle Marx Gautherot estabeleceria uma colaboração igualmente de décadas, registrando extensivamente as principais obras do grande mestre do paisagismo brasileiro.

A obra de Gautherot desempenhou um papel fundamental na construção de um imaginário brasileiro. Seu grande projeto documental – realizado ao longo de mais de cinqüenta anos de atividade no Brasil até o seu falecimento no Rio de Janeiro em 1996 e cristalizado em imagens icônicas que integram seu acervo de mais de 25.000 fotografias, hoje preservadas no Instituto Moreira Salles – mapeou, documentou e interpretou a trama de território, tradição e invenção que deu forma ao Brasil moderno.

Esta exposição retrospectiva de Marcel Gautherot, realizada durante as comemorações dos 80 anos do IPHAN no Paço Imperial do Rio de Janeiro, edifício símbolo da luta pela preservação do patrimônio brasileiro, constitui importante homenagem ao seu profundo legado no campo da fotografia, promovendo, simultaneamente, o reencontro de sua obra com as origens e os protagonistas deste projeto patrimonial tão essencial para o país e sua cultura.

Instituto Moreira Salles

 

Gautherot, o fotógrafo do Patrimônio

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) – em parceria com o Instituto Moreira Salles – sente-se profundamente honrado em poder comemorar seus 80 anos de existência com a exposição Marcel Gautherot – Brasil: Tradição, Invenção. O artista colaborou com o Instituto por cinco décadas, deixando um legado de valor incalculável, com o registro fotográfico daquilo que, hoje, entendemos e preservamos como Patrimônio Cultural Brasileiro.

A importância desse artista reside em sua capacidade de antecipação. Muito antes das discussões que se cristalizaram na Constituição de 1988, Marcel Gautherot estava no Norte e Nordeste do Brasil descobrindo os bens de natureza material e imaterial, tombados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. Gautherot encontrou vida e gente nas cidades históricas de Minas Gerais. No Rio de Janeiro, além do carnaval e da paisagem, dedicou-se a fotografar a arquitetura contemporânea. E encontrou em Brasília terreno fértil para a sua arte plena. Tradição e modernidade reunidas na construção de um patrimônio e de uma cidade.

Além dessa abrangência de temas, que perpassa a diversidade cultural brasileira, o fotógrafo faz parte de um grupo que percebeu a necessidade de preservar para as futuras gerações os bens culturais que contribuem para formar nossa identidade como povo – sejam edifícios, cidades históricas, festas ou formas de expressão, entre outros. Foi o empenho de pessoas como ele, comprometidas com essa causa que permitiu a institucionalização de uma política para o patrimônio cultural brasileiro.

Foi o próprio Rodrigo Melo Franco de Andrade, sempre contando com a participação atenta de Lucio Costa, quem coordenou a formação do arquivo fotográfico do Iphan. A instituição conta atualmente com um acervo que chega a 200 mil imagens organizadas em várias séries. Marcel Gautherot não esteve sozinho. Também fotografaram para o Patrimônio: Edgar Cardoso Antunes, Eduard Schultze, Erich Hess, Harald Schultz, Herman Graeser, Kasys Vosylius, Paul Stille, Peter Lange e Pierre Verger, entre muitos outros profissionais ou amadores.

Em 1937, quando o então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional dava seus primeiros e fundamentais passos, Gautherot já colaborava com o Museu do Homem de Paris. Em 1940, depois de fotografar parte do universo mágico do México e percorrer a Amazônia, ambas as viagens a serviço do Museu do Homem, decide mudar-se para o Brasil, estabelecendo-se no Rio de Janeiro. Mas o artista desejava conhecer a terra de Jorge Amado. Ou melhor, a Salvador ou o Recôncavo de Balduíno e de Jubiabá, personagens do romance lançado em 1934 e que escancarou a força da cultura afro-baiana para todo o mundo, incluindo o Brasil. No Rio de Janeiro, foi apresentado ao grande Rodrigo Melo Franco de Andrade. Não tardou, estava incorporado ao grupo de amigos do patrimônio e de abnegados servidores da repartição.

A partir dessa trajetória ligada estreitamente à valorização da cultura brasileira, e da beleza e abrangência de sua obra, que Marcel Gautherot se destaca entre os artistas que participaram desse movimento para valorizar a cultura, a história e a memória do país. Diante disso, espera-se que a presente exposição contribua para divulgar tanto a importante obra do artista, quanto a riqueza da cultura que ela revela.

Kátia Bogéa

Paço Imperial
Praça XV de Novembro, 48
Centro - Rio de Janeiro
55 21 2215 2093
 
De terça a domingo, das 12 às 19h
Entrada Franca

Bistrô do Paço
De segunda a sexta, das 11h às 19h30
Sábados, domingos e feriados, das 12h às 19h
 
Restaurante Arlequim
De segunda a sexta, das 10h às 20h
Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h