Mônica Barki

Eu me Declaro
Frederico Dalton

Borbulho e síntese

“Declarar” é anunciar, revelar, tornar claro… Sobre o quê lança luz o título desta exposição? Antes de tudo, ele afirma o amor da artista pela arte como emissária de verdades pessoais. O trabalho fala pela artista. Aqui não existe “arte pela arte”: arte tem uma função. E que isso fique bem claro, dito de uma forma que nos remeta às declarações de amor. Em português, a forma reflexiva do verbo declarar é geralmente usada para afirmar amor, este sentimento, aliás, tão frequentemente acusado de se nutrir de autoenganos. Em “Eu me declaro” a artista proclama sua fascinação pela magia e pela força das imagens, às quais delega o papel de falar por ela.
Declarar é também esclarecer. E a história da cultura é feita de uma série de “esclarecimentos” que, ainda que nos tenham deixado menos ignorantes, também deflagaram crises. A Terra deixou de ser o centro do universo; a mente humana não é mais uma série de camadas em direção a um núcleo único e indivisível; as imagens foram desmascaradas como “simulacros” a serviço do consumo e da superficialidade. O próprio olhar tornou-se suspeito, como cúmplice de uma estratégia dissimulada para “vigiar e punir”. Finalmente, com a onipresença da Internet, consolida-se a constatação dos imprecisos contornos da identidade. Mas, apesar de tudo isso, na obra de Monica Barki as imagens e, principalmente, a figuração continuam aptas a condensar verdades.
Para Monica, imagens são porta-vozes honestos e confiáveis para comunicar sua incompletude e inconformismo, para assisti-la em sua busca por autoconhecimento. E são assim não só as imagens finais, resultantes de um longo processo de trabalho, aquelas mostradas como pinturas e desenhos desta exposição. Todo o caminho que leva às pinturas de grande formato em sua produção mais recente é feito de um contínuo legitimar e reativar imagens anteriores. No final, uma obra se apresenta como síntese e afirmação de várias linguagens, vários meios, de várias imagens.
É um constante acumular, reunir e sintetizar registros prévios, num procedimento que, ao mesmo tempo em que faz transcender uma figuração produzida num determinado meio, uma após a outra, também as torna permanentes. Nas pinturas da série “Cárcere”, por exemplo, conviverão para sempre não só o embate entre os sexos, como a inter-relação entre vídeo, fotografia e performance.
Um outro exemplo das várias operações de síntese realizadas nesta exposição está sinalizado no “eu” do título da exposição. Quem é este eu? Numa leitura apressada, seria a própria artista, que nos atrai como uma Dominatrix para um espelho onde contemplamos nossa indiferença diante do machismo e da opressão. Mas, para, além disso, sempre que um visitante ou qualquer pessoa citar este “Eu me declaro”, automaticamente ele ou ela estará se integrando, como co-declarante, a este eu transcendental fundado pela mostra.
O eu da artista se dissemina por meio da sua fé na figuração. Ainda que um quadro ou desenho tenha limites bem definidos, cada um deles é um convite para que a identidade da artista (uma identidade da qual faz parte a capacidade de gerar imagens de si mesma) seja reelaborada coletivamente. Na Revolução Digital, a figuração reacende o debate sobre as relações entre imagem e identidade, entre permanência e fluxo, entre virtualidade e presença: o corpo da artista, então, age como um farol que ilumina os dilemas do corpo do espectador numa época onde as relações humanas se desenrolam em grande parte sobre um teclado.
A exposição está organizada em quatro espaços distintos e se sugere que sejam percorridos nesta ordem: “Sala Sínteses”, com trabalhos que sintetizam numa imagem final registros realizados em suportes diversos; “Sala Metafísica”, um ambiente que acentua aspectos lúgubres em obras sobre a condição humana; “Sala das Máquinas”, com obras animadas por mecanismos giratórios que convidam a uma reflexão sobre uma possível insuficiência dos suportes “puros” na contemporaneidade e, finalmente, “Sala Origem”, onde se propõe o reencontro com obras inaugurais e uma meditação sobre a perfeita integração entre figuração e identidade, presente já na produção da artista no final dos anos 1970. Com este percurso, a ideia é mostrar e reinterpretar sínteses realizadas ao longo da rica trajetória de Monica Barki, convidando os visitantes a uma caminhada até o ponto de partida onde se pode sentir o borbulho da Fonte das Imagens.
Frederico Dalton

Paço Imperial
Praça XV de Novembro, 48
Centro - Rio de Janeiro
55 21 2215 2093
 
De terça a domingo, das 12 às 19h
Entrada Franca

Bistrô do Paço
De segunda a sexta, das 11h às 19h30
Sábados, domingos e feriados, das 12h às 19h
 
Restaurante Arlequim
De segunda a sexta, das 10h às 20h
Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h